Como transformar um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea em um desfile de escola de samba? Esse é o desafio assumido pela equipe de carnaval da Unidos de Vila Isabel na criação do enredo “Torto Arado – Sobre a Terra Há de Viver Sempre o Mais Forte”, que será apresentado na Marquês de Sapucaí em 2027.

Assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em parceria com o pesquisador Vinicius Natal, o enredo propõe uma leitura própria da obra de Itamar Vieira Junior. Em vez de reproduzir a narrativa do livro linha a linha, a equipe optou por preservar seus principais temas e reorganizar a história para o formato de um desfile.

Uma narradora para conduzir a Avenida

No romance, a trama é contada pelas vozes de Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira, em uma narrativa marcada por diferentes tempos e perspectivas. Para a Sapucaí, a escola optou por uma linha mais direta, com Santa Rita Pescadeira — encantada do Jarê, religião de matriz afro-indígena presente exclusivamente na Chapada Diamantina — como a grande narradora da história. É ela quem conduz a trajetória da família de Zeca Chapéu Grande, desde a formação daquele território, marcada pelo garimpo e pela exploração da terra, até a luta de Bibiana e Belonísia pelo reconhecimento de seus direitos e de sua identidade quilombola.

Segundo o carnavalesco Leonardo Bora, essa foi a decisão central do processo de adaptação: colocar Santa Rita Pescadeira como fio condutor de todo o enredo, “pescando” a história da família por meio de sua rede. A partir desse ponto de vista, a equipe reorganizou a cronologia do livro para que o público acompanhasse a trajetória de forma mais fluida — sem, segundo ele, abrir mão da potência poética e simbólica da obra original.

Diálogo entre literatura e linguagem do carnaval

Para o pesquisador Vinicius Natal, o objetivo nunca foi transpor o romance integralmente para a Avenida, mas construir uma narrativa capaz de dialogar com a linguagem própria do carnaval. Ele lembra que nem todas as camadas do livro poderiam caber num desfile, e que o caminho encontrado foi acompanhar a família desde a ancestralidade do território, passando por Donana e Zeca Chapéu Grande, até chegar a Bibiana e Belonísia.

Natal recorre a uma reflexão do próprio Itamar Vieira Junior para justificar a escolha: trata-se de uma história que ecoa a de muitas famílias brasileiras que ainda hoje enfrentam a luta pela terra e por direitos sociais. Ao mesmo tempo, a equipe buscou uma narrativa clara para o público e eficiente dentro da lógica do desfile.

Um processo construído a várias mãos — com a presença do autor

Gabriel Haddad destaca que a definição de Santa Rita Pescadeira como narradora não foi uma escolha isolada, mas resultado de um processo coletivo, que contou com a participação direta de Itamar Vieira Junior nas conversas entre carnavalescos e pesquisador. Para a equipe, a personagem reúne simbolicamente as vozes de Bibiana e Belonísia, o que a tornou a figura ideal para conduzir uma história atravessada pelo encantamento, pela memória e pela força daquele território.

A partir dessa definição, o enredo foi reorganizado para ser compreendido tanto pelos compositores que disputam o samba da escola quanto pelo público que estará na Sapucaí em 2027 — preservando a essência do romance e apostando, segundo Haddad, em um desfile de grande impacto visual.

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