Falar sobre o futuro do Rio de Janeiro é um exercício que exige estômago forte e, acima de tudo, coragem para encarar o elefante na sala. A cada ciclo eleitoral, assistimos ao mesmo teatro político: candidatos ao governo do estado desfilam em praça pública prometendo segurança pública de “mão dura”, investimentos em alta tecnologia e uma suposta revolução na inteligência policial. No entanto, há um pacto silencioso de omissão. Ninguém ousa pronunciar a palavra que realmente dita as regras do jogo político fluminense: milícia.

Enquanto os debates televisivos se perdem em propostas genéricas e embates corporativistas, o poder paralelo avança sobre os territórios não mais como um “mal menor”, mas como uma estrutura corporativa, paraestatal e profundamente enraizada nas urnas. Ignorar esse fato não é apenas ingenuidade; é conivência.

O voto sob tutela: como o crime organizado sequestra a democracia

O domínio territorial exercido pelos grupos paramilitares no Rio de Janeiro há muito deixou de ser restrito à extorsão de comerciantes ou ao controle de botijões de gás e gatonet. Hoje, a milícia é uma máquina eleitoral altamente eficiente. Nos bairros e municípios dominados por esses grupos, a soberania do Estado é uma ficção jurídica.

O mecanismo de coerção é simples e devastador:

  • Monopólio da circulação de candidatos: Em muitas zonas da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense, cabos eleitorais tradicionais simplesmente não entram. Apenas candidatos autorizados pela cúpula do paramilitarismo podem fazer campanha.
  • Candidatos próprios e laranjas: O passo evolutivo do crime foi lançar seus próprios representantes — policiais corruptos, ex-seguranças e agiotas que hoje ocupam cadeiras em câmaras de vereadores e na Assembleia Legislativa.
  • O voto de cabresto moderno: A população é chantageada sutilmente. A promessa de “ordem” e “segurança” contra o tráfico vem acompanhada da imposição de quem deve receber o voto, sob pena de expulsão sumária ou retaliações econômicas.

Quando os candidatos ao governo ignoram essa dinâmica, eles fingem que o eleitor fluminense é plenamente livre para escolher. E a verdade inconveniente é que, em dezenas de redutos eleitorais, a urna eletrônica apenas valida a escolha feita pelo fuzil e pela bala.

A hipocrisia institucional e o silêncio estratégico

Por que os principais nomes que disputam o Palácio Guanabara evitam o tema? A resposta reside na complexidade das teias de poder. O paramilitarismo no Rio não sobrevive sem a conivência de setores da própria máquina pública. Trata-se de uma hidra com tentáculos na política partidária, nas polícias Civil e Militar, no sistema judiciário e no setor imobiliário clandestino.

Enfrentar a milícia significa mexer em um vespeiro que financia campanhas, garante votos em bloco e movimenta bilhões de reais em economia ilegal. Para um candidato que depende de acordos pragmáticos para formar alianças e garantir tempo de TV, peitar o crime organizado estruturado parece um risco alto demais. É muito mais confortável tratar a segurança pública como um problema de “guerra às drogas” tradicional, focando exclusivamente nas favelas dominadas pelo tráfico e ignorando os condomínios, loteamentos e bairros inteiros geridos por milicianos.

Essa miopia deliberada cobra um preço altíssimo do estado. Ao focar apenas no varejo da criminalidade e negligenciar o atacado da corrupção paramilitar, o governo estadual perpetua um ciclo vicioso onde o próprio Estado alimenta as bases do seu próprio enfraquecimento.

O que esperar do próximo governo?

Diante desse cenário sombrio, as expectativas para o próximo mandato no executivo estadual exigem um banho de realismo. Se os postulantes ao governo continuarem a tratar a milícia como um tema secundário de polícia, e não como uma questão de sobrevivência democrática, o Rio de Janeiro continuará a murchar economicamente e socialmente.

Espera-se, infelizmente, a continuidade de políticas paliativas. Operações pirotécnicas que geram manchetes, mas pouco afetam a estrutura financeira e política dos chefes do esquema. Sem um plano de inteligência financeira implacável, que ataque os negócios legais usados para lavar o dinheiro da extorsão (como transporte alternativo, loteamentos ilegais e combustíveis), qualquer promessa de campanha não passará de ilusão retórica.

Conclusão

O futuro do Rio de Janeiro está irrevogavelmente atrelado à coragem de enfrentar o poder das milícias nas urnas e nos territórios. Enquanto os candidatos ao governo do estado insistirem em fingir que o domínio paramilitar é apenas um detalhe periférico e não o coração do problema político fluminense, a democracia no estado continuará sendo uma promessa incompleta, refém daqueles que usam a força das armas para ditar quem governa e quem paga a conta.

Eleitores, jornalistas e a sociedade civil precisam cobrar um posicionamento claro e contundente de quem deseja administrar o estado. Votar sem enxergar essa verdade inconveniente é aceitar que o Rio de Janeiro permaneça refém de um sistema onde o voto é vigiado e o poder público é cúmplice. A mudança só começará no dia em que o Palácio Guanabara tiver mais força do que os donos do poder paralelo.

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