Navegando pela internet há alguns dias, deparei-me com uma postagem no mínimo curiosa: as religiões dos presidentes da República, desde o primeiro até o atual, Luiz Inácio Lula da Silva. Como era de se esperar, salvo algumas exceções, como Café Filho e Ernesto Geisel — ambos protestantes —, a maioria era católica. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, é agnóstico. Não está em discussão aqui se eles eram realmente católicos praticantes, mas algo muito mais profundo: a religião é realmente importante para um líder de uma nação?
E por que, depois de várias décadas, em pleno século XXI, estamos voltando a discutir esse assunto? Sabemos que acreditar ou não na existência de Deus não torna ninguém automaticamente melhor. Pelo contrário: uma pessoa religiosa também pode reproduzir preconceitos e intolerância em relação a outras religiões — ainda mais quando se leva em conta o perfil supremacista presente em alguns grupos e correntes religiosas. É impopular dizer isso, mas é uma realidade que muitas vezes deixamos passar batida.
É fato conhecido que a predominância do catolicismo na sociedade brasileira do século XIX, quando a religião católica era oficialmente vinculada ao Estado, fez com que os negros escravizados lançassem mão do sincretismo religioso e de diferentes estratégias para preservar e praticar suas próprias crenças. Não está em debate aqui se o catolicismo está “certo” ou “errado”. O que está em discussão é a genuína importância de trazer a questão religiosa para o debate eleitoral — tema que ganhou ainda mais força na campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018, e que continua presente no cenário político, especialmente após a pandemia de covid-19.
É importante trazer esse tema para o debate. Isso porque ser religioso ou não ser religioso, por si só, não torna ninguém moralmente melhor. E, muitas vezes, o fator religioso vem sendo levado em conta até mais do que as propostas concretas apresentadas por cada candidato.
A impressão que temos é de que o discurso religioso, que parecia ter perdido espaço no debate político no fim do século passado, ganhou novas cores e uma nova face, principalmente após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Em 2026, estamos às vésperas dos 25 anos daqueles ataques, que também contribuíram para recolocar o extremismo religioso no centro das discussões políticas e sociais em diversas partes do mundo.
Precisamos, então, pensar: até que ponto o fanatismo religioso pode contribuir para conflitos e para a radicalização política? Os atentados de 11 de setembro foram praticados por extremistas que justificavam seus atos a partir de uma interpretação radical da religião. Mas reduzir fenômenos tão complexos a uma única causa seria simplificar demais a história.
Da mesma forma, é preciso refletir sobre o papel que a religião vem desempenhando na polarização política brasileira. Quando a fé passa a ser utilizada como instrumento de disputa eleitoral e como critério para definir quem seria ou não um “bom cidadão”, o debate sobre políticas públicas, propostas e projetos de país corre o risco de ficar em segundo plano.
E isso em nada ajuda na discussão sobre o que pode construir, de fato, um país e um Estado do Rio de Janeiro melhores.
A religião pode ser importante para a vida de milhões de pessoas. Pode oferecer conforto, valores, identidade e sentido. Mas, em uma democracia, a fé de um candidato não deveria ser usada como atestado automático de caráter, assim como a ausência de uma religião não deveria ser tratada como sinônimo de falta de valores.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja qual é a religião de quem pretende governar, mas quais são seus princípios, suas propostas e, principalmente, como pretende governar uma sociedade formada por pessoas que acreditam de maneiras diferentes — ou que simplesmente não acreditam.


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