Três policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) por envolvimento em um esquema de corrupção que teria usado a estrutura da Polícia Militar para oferecer policiamento privilegiado a estabelecimentos comerciais em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP/MPRJ), que, nesta quinta-feira (10), também cumpriu três mandados de prisão preventiva contra os agentes durante a sexta fase da Operação Patrinus. A ação contou com apoio da Corregedoria-Geral da Polícia Militar e da Secretaria de Estado de Polícia Penal (SEPPEN).
Os três são acusados de corrupção passiva militar. Segundo o MPRJ, eles teriam recebido e negociado pagamentos para direcionar o patrulhamento até a Clínica Fênix, em Belford Roxo.
PMs teriam criado uma espécie de “policiamento particular”
De acordo com as investigações, a clínica fazia parte de uma rede de comerciantes e empresas que os próprios policiais chamavam de “padrinhos”. Esses estabelecimentos pagariam para receber um atendimento diferenciado das equipes que atuavam na região.
Em troca, os policiais direcionariam o patrulhamento, incluiriam os locais nas rotas prioritárias e compareceriam aos estabelecimentos sempre que fossem acionados.
Na avaliação do Ministério Público, a estrutura e o serviço da Polícia Militar eram utilizados para atender interesses privados, transformando o policiamento ostensivo, que deveria ser destinado à população, em uma espécie de serviço privilegiado para quem pagasse.
Conversas revelaram discussão sobre pagamento
No caso da Clínica Fênix, a investigação identificou o pagamento de R$ 50 aos policiais e tratativas para que o valor chegasse a R$ 100.
Mensagens extraídas do celular de um dos denunciados mostram uma discussão sobre a diferença entre o valor efetivamente pago e aquele que teria sido combinado.
Em uma das conversas, um dos agentes afirma que, “na vez dele foi galo”, expressão utilizada para se referir ao pagamento de R$ 50. Na sequência, diz ter entendido que o acordo seria de R$ 100. Outro policial também relata ter recebido R$ 50.
Segundo o GAESP, um dos denunciados seria responsável por intermediar a relação com a clínica, negociar os valores e coordenar o atendimento entre as diferentes equipes. Outro acompanharia as tratativas e os pagamentos.
O terceiro teria participado diretamente do patrulhamento direcionado ao estabelecimento. Ele também teria enviado ao grupo de WhatsApp fotografias da atuação no local e recebido pessoalmente R$ 50.
Os fatos investigados ocorreram entre setembro e outubro de 2021, período em que os três policiais estavam lotados no 39º BPM, em Belford Roxo.
Dois já estavam presos
Dos três denunciados, dois já estavam presos por causa de outro processo relacionado à mesma investigação. Os novos mandados de prisão foram cumpridos no Batalhão Especial Prisional (BEP) e no presídio Joaquim Ferreira de Souza.
O terceiro policial foi localizado e preso em casa, no bairro Parque Rosário, em Nova Iguaçu.
Um dos agentes denunciados já foi expulso da Polícia Militar após o oferecimento da denúncia.
A acusação foi recebida pela Auditoria da Justiça Militar, dando prosseguimento ao processo contra os policiais.
Investigação revelou outros esquemas
A Operação Patrinus começou em maio de 2024, a partir de uma investigação sobre policiais militares do 39º BPM, em Belford Roxo. Durante a apuração, a análise de celulares apreendidos revelou novos suspeitos e outras possíveis práticas criminosas.
A investigação passou, então, a ter novos desdobramentos.
Em agosto de 2025, dez policiais militares foram presos sob acusação de extorquir comerciantes.
Em maio de 2026, o GAESP/MPRJ denunciou 11 policiais por suspeita de receber propina para prestar segurança particular a estabelecimentos comerciais durante o expediente.
No mês seguinte, quatro PMs foram denunciados por peculato e comércio ilegal de arma de fogo. Segundo a acusação, eles teriam vendido uma pistola apreendida durante uma ocorrência e dividido o dinheiro obtido com a negociação.
A nova fase da Patrinus amplia o retrato traçado pela investigação sobre a atuação de policiais que, segundo o Ministério Público, teriam desviado a finalidade do policiamento público para beneficiar interesses particulares.
Os três denunciados responderão pelo crime de corrupção passiva militar. A denúncia e as prisões são medidas decorrentes da investigação e não representam, por si só, condenação definitiva dos acusados, que têm direito à ampla defesa e ao contraditório.


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