A imagem do Rio de Janeiro construída por turistas costuma passar por praias, paisagens, vida noturna e pontos históricos. Mas, para quem vive em determinadas áreas da cidade, a experiência cotidiana pode ser marcada por uma preocupação bem menos turística: a possibilidade de a violência chegar até dentro de casa.
Essa diferença de percepção foi levantada por um internauta em um relato publicado nas redes sociais. O comentário surgiu depois que ele assistiu a um vídeo de um casal que visitou o Centro e a Zona Sul e chegou à conclusão de que o Rio seria a “melhor cidade para morar”.
A partir daí, o morador contrapôs a experiência dos visitantes à própria rotina na Penha, na Zona Norte. Segundo ele, sua residência fica a poucos quilômetros de diferentes comunidades, entre elas áreas associadas aos complexos da Penha e da Cidade Alta.
O ponto central do relato, porém, não é apenas a proximidade geográfica com regiões de conflitos armados. É a sensação de que a violência pode atingir pessoas que não estão envolvidas com qualquer atividade criminosa e que, mesmo dentro de casa, não existe uma separação absoluta entre o espaço considerado seguro e o território onde ocorrem confrontos.
Bala atravessa telhado e chega perto de janela
O episódio mais recente relatado pelo internauta envolve uma bala que atingiu sua residência. Segundo ele, o projétil atravessou uma telha de alumínio e caiu próximo à janela do quarto dos pais.
A preocupação aumenta porque, conforme descreve, o impacto foi suficiente para perfurar a telha e amassá-la. Na avaliação do morador, caso o projétil tivesse atingido diretamente a janela, poderia ter atingido alguém dentro do imóvel.
O episódio alterou até mesmo a maneira como ele encara o trabalho em casa. Por trabalhar remotamente, costuma permanecer diante do computador próximo a uma janela, principalmente por causa do calor. Com os disparos ocorrendo nas proximidades, entretanto, uma atividade cotidiana passa a ser acompanhada por uma preocupação constante.
Ele resume essa sensação como uma espécie de dependência da sorte: “tomara que a bala não venha aqui”.
A frase ajuda a dimensionar o aspecto psicológico presente no relato. Não se trata apenas do medo de estar na rua durante um confronto. Para o morador, a insegurança também significa não conseguir eliminar completamente o risco dentro do próprio ambiente doméstico.
Violência que chega até quem tenta se proteger
O relato menciona ainda outro episódio. No ano passado, segundo o internauta, o carro da família foi atingido por um disparo na Avenida Meriti, na altura do Colégio Pio XII.
A sucessão de situações é utilizada por ele para questionar o argumento de que bastaria evitar determinadas áreas para reduzir a exposição à violência. Na visão apresentada no depoimento, o problema é justamente a imprevisibilidade dos episódios.
“Não precisa estar na rua pra sofrer com a violência, ela vem até você”, escreveu.
É nesse ponto que o relato deixa de ser apenas uma reclamação sobre a criminalidade e passa a expressar uma crítica à distância entre diferentes experiências de uma mesma cidade.
A cidade do turista e a cidade de quem mora nela
O Rio pode produzir percepções completamente diferentes dependendo do lugar, da rotina e da condição de quem o observa. Um visitante que passa alguns dias em regiões turísticas pode experimentar uma cidade marcada pela paisagem, pela gastronomia, pela cultura e pelo lazer. Já um morador de uma área afetada por confrontos pode ter sua relação com o município determinada por fatores como deslocamento, segurança, comércio local e medo.
O internauta não contesta a existência das qualidades que tornam o Rio atrativo. Seu questionamento está na tentativa de transformar uma experiência turística específica em uma conclusão abrangente sobre o que significa morar na cidade.
Ele também rejeita a resposta recorrente de que “todo lugar tem violência”. Para o morador, comparar diferentes níveis de insegurança sem considerar a frequência, a intensidade e a proximidade dos episódios pode acabar banalizando situações que têm consequências concretas para quem está exposto a elas.
O relato, portanto, coloca em evidência uma questão que vai além da disputa entre quem considera o Rio maravilhoso ou perigoso: qual Rio está sendo considerado quando alguém afirma que a cidade é um dos melhores lugares para viver?
A resposta depende, em grande medida, do ponto de vista. Para o turista, a cidade pode ser observada a partir de seus cartões-postais. Para quem vive em uma região onde disparos fazem parte da rotina, a avaliação pode começar por uma pergunta mais básica: até que ponto é possível se sentir seguro dentro da própria casa?
O depoimento do internauta é uma experiência individual e não representa, por si só, a realidade de todos os moradores da Penha ou do Rio de Janeiro. Mas expõe uma contradição importante da cidade: a distância entre a imagem que o Rio vende para quem chega e a realidade enfrentada diariamente por parte de quem vive nela.


Deixe uma resposta