Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos nomes que ajudaram a transformar o jornalismo brasileiro em uma forma de compreender, e não apenas registrar, a história do país. Ele morreu em casa, em decorrência de uma pneumonia, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL).
A importância de Zuenir vai muito além dos cargos que ocupou ou dos veículos pelos quais passou. Durante mais de seis décadas, ele foi repórter, editor, colunista, professor e escritor. Trabalhou em jornais e revistas como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ, acompanhando diferentes períodos da vida política, cultural e social brasileira.
Mas talvez seja nos livros que sua contribuição tenha ficado mais evidente. Em 1988, Zuenir publicou “1968 – O ano que não terminou”, uma reconstrução daquele período de intensa transformação política e cultural. A obra se tornou uma referência para compreender não apenas o ano de 1968, mas também as marcas que aquela geração deixou no Brasil. O livro chegou a mais de 400 mil exemplares vendidos e inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, da TV Globo.
Outro trabalho fundamental foi “Cidade partida”, publicado em 1994. Depois da chacina de Vigário Geral, em 1993, Zuenir mergulhou no cotidiano da comunidade e procurou entender a violência urbana a partir das pessoas que conviviam diretamente com ela. O resultado foi um livro-reportagem que colocou em discussão a desigualdade, a violência e a distância social que atravessavam o Rio de Janeiro. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.
Zuenir também teve papel importante na cobertura do caso Chico Mendes. Em 1989, publicou no Jornal do Brasil a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, resultado de sua ida à região para acompanhar as investigações sobre o assassinato do seringueiro. O trabalho recebeu os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog.
Um jornalista que ensinou a olhar
É justamente aí que talvez esteja uma das maiores contribuições de Zuenir para o jornalismo: ele não se limitava ao acontecimento. Procurava as pessoas, as histórias e as contradições que existiam por trás da notícia. Sua reportagem tinha apuração, mas também tinha literatura; tinha informação, mas também tinha humanidade.
Zuenir também foi importante como formador de jornalistas. Antes e durante sua trajetória na imprensa, atuou como professor e ajudou a formar profissionais que passaram por suas aulas e redações. Foi repórter e comentarista, editor e redator, chefe e orientador, intelectual e professor.
Essa combinação ajuda a explicar por que sua influência ultrapassou os livros que escreveu. Zuenir representava uma geração de jornalistas para quem o texto precisava ter qualidade sem perder a responsabilidade com o fato. Uma geração que entendia que contar uma história também era uma maneira de ajudar o leitor a compreender o país.
Em 2014, ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que havia pertencido a Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015.
A presença de Zuenir na ABL simbolizava também a aproximação entre jornalismo e literatura. Ele transitava entre os dois mundos com naturalidade, sem deixar de ser jornalista quando escrevia livros e sem abandonar a força literária quando produzia reportagens.
Um legado para o jornalismo
A morte de Zuenir Ventura encerra uma trajetória que atravessou diferentes gerações da imprensa brasileira. Seu trabalho ajudou a mostrar que o jornalista pode ser, ao mesmo tempo, testemunha de seu tempo e intérprete da sociedade.
Para quem trabalha ou pretende trabalhar com jornalismo, talvez essa seja a principal herança deixada por Zuenir: a notícia não termina no fato. Existe uma história humana por trás dela. Existe um contexto. Existem personagens. Existem consequências.
Zuenir soube transformar tudo isso em narrativa sem perder de vista o compromisso com a reportagem.
Seu nome fica associado a algumas das grandes páginas do jornalismo brasileiro do século XX e início do século XXI. E seus livros continuam servindo como documentos de uma época em que o Brasil mudou profundamente.
O velório será realizado nesta quarta-feira (23), na sede da Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio. O sepultamento ocorrerá no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Zuenir Ventura morreu aos 95 anos. Mas deixou algo que, para um jornalista, talvez seja a forma mais duradoura de permanecer: histórias que continuam ajudando o país a entender a si próprio.