O Brasil se despede de uma atriz que, mais do que interpretar personagens, ajudou a construir a própria história da televisão nacional. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira (17), em São Paulo, de causas naturais. Com uma trajetória de oito décadas, ela deixa um legado que atravessa o rádio, o teatro, o cinema e, principalmente, a televisão.
Laura não pertenceu apenas a uma geração de artistas. Ela esteve presente em várias delas. Quando começou a carreira, a televisão brasileira sequer existia. A atriz iniciou sua trajetória no rádio ainda adolescente e chegou à televisão nos primeiros anos do novo meio de comunicação, tornando-se uma das pioneiras da TV no país. Em 1952, estreou na TV Tupi, no programa Tribunal do Coração.
É justamente aí que está uma das dimensões mais importantes de sua carreira. Laura Cardoso não chegou à televisão quando ela já era uma indústria consolidada. Ela ajudou a construí-la. Passou pelos teleteatros, pelas primeiras novelas e por diferentes emissoras em uma época em que atuar diante das câmeras ainda era uma experiência quase experimental.
Sua carreira começou em um Brasil muito diferente do atual. Na década de 1940, uma mulher escolher a profissão de atriz ainda significava enfrentar preconceitos. Laura, porém, insistiu. O que começou nas radionovelas ganhou novos palcos e telas e, décadas depois, transformou aquela jovem apaixonada por representar em uma das artistas mais respeitadas do país.
Ao longo do caminho, Laura Cardoso passou pela TV Tupi, Record e Bandeirantes antes de chegar à Globo, em 1981. Na emissora, construiu uma extensa galeria de personagens e se tornou presença recorrente em novelas que marcaram a memória afetiva dos brasileiros. Entre seus trabalhos estão Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, O Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço.
Mas reduzir Laura às novelas seria diminuir sua importância. O teatro ocupou um lugar central em sua formação e em sua identidade artística. Ela também construiu uma carreira respeitada no cinema, com participações em produções como Terra Estrangeira e Através da Janela. Ao todo, somou mais de cem trabalhos entre novelas, séries e especiais, segundo a TV Globo.
Havia em Laura uma característica que ajudava a explicar sua longevidade: ela tratava a profissão como ofício. Não havia a ideia de que a idade pudesse determinar o momento de parar. Em entrevistas, demonstrava orgulho da carreira e um vínculo profundo com a atuação. Em 2023, aos 96 anos, ainda falava sobre o amor pelo trabalho e pela própria vida com a espontaneidade que marcou sua personalidade.
Talvez por isso sua presença em cena fosse tão especial. Laura não precisava necessariamente estar no centro da história para chamar a atenção. Bastava entrar em cena. Colegas de profissão lembraram justamente dessa capacidade. Tony Ramos, que conviveu com a atriz durante décadas, afirmou que ela era sua “rainha” e destacou seu talento, vigor, generosidade e dedicação ao trabalho.
A última novela de Laura Cardoso foi A Dona do Pedaço, em 2019. Aos 92 anos, interpretou Matilde, personagem que guardava informações importantes para o desenvolvimento da trama. Entretanto, sua carreira não terminou ali. Em 2025, protagonizou o curta-metragem Dona Rosinha e ainda participou de uma vinheta de fim de ano da Globo ao lado do bisneto.
Essa disposição para continuar trabalhando ajuda a dimensionar o que Laura representou. Em uma profissão marcada por mudanças constantes, ela atravessou diferentes tecnologias, linguagens, estilos de dramaturgia e gerações de atores sem perder sua identidade. Viu a televisão nascer, crescer, se transformar e chegar à era do streaming. E permaneceu, de alguma forma, pertencendo a todas essas épocas.
Sua importância também pode ser medida pela forma como era tratada por quem trabalhou com ela. Após sua morte, artistas como Tony Ramos, Miguel Falabella, Zezé Motta, Lilia Cabral e Ary Fontoura prestaram homenagens e destacaram não apenas a atriz, mas a mulher generosa, disciplinada e apaixonada pelo ofício.
Laura Cardoso recebeu importantes reconhecimentos ao longo da carreira, incluindo o Prêmio Shell de melhor atriz e o Troféu Oscarito pelo conjunto da obra. Em 2006, também recebeu a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais distinções concedidas pelo Estado brasileiro a personalidades que contribuem para a cultura do país.
A morte de Laura deixa uma ausência difícil de preencher porque sua trajetória não pode ser substituída simplesmente por outro nome. Ela pertence à história. É uma daquelas artistas cuja carreira se confunde com a evolução de uma linguagem artística no Brasil.
Por décadas, Laura Cardoso entrou na casa dos brasileiros por meio de personagens diferentes, em histórias diferentes, mas sempre carregando algo que parecia permanecer intacto: o respeito pelo trabalho de atriz. Agora, quando as telas voltarem a exibir seus personagens, o público provavelmente reconhecerá algo maior do que uma personagem conhecida. Verá um pedaço da própria história da televisão brasileira.
Laura Cardoso morreu, mas sua carreira permanece onde ela sempre quis estar: em cena. E, desta vez, não apenas na televisão, no cinema ou no teatro, mas na memória de um país que acompanhou sua trajetória por oito décadas.


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