Pesquisadores da Faperj

O lixo que chega diariamente aos aterros sanitários pode esconder uma fonte de energia ainda pouco aproveitada. É justamente sobre esse potencial que pesquisadores estão trabalhando com a ajuda da inteligência artificial. Financiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), um estudo pretende desenvolver uma tecnologia capaz de aumentar a produção de biogás em aterros e, com isso, ampliar a geração de energia renovável a partir dos resíduos urbanos.

A proposta combina inteligência artificial e biotecnologia para entender o que acontece dentro dos aterros e descobrir por que alguns poços de captação produzem mais gás do que outros.

O foco está no metano, principal componente do biogás produzido naturalmente durante a decomposição da matéria orgânica. A partir da análise de dados sobre as condições de funcionamento dos aterros, os pesquisadores pretendem identificar os fatores que interferem na produção do gás e encontrar maneiras de melhorar o desempenho dos sistemas de captação.

“Nosso objetivo é entender por que alguns poços apresentam uma produção de biogás menor do que outros e, a partir da análise dessas informações, encontrar uma forma de melhorar esse desempenho. A inteligência artificial será uma ferramenta importante para identificar os fatores que mais influenciam essa produção”, explica o pesquisador Álvaro Freitas.

Do lixo para a geração de energia

O biogás é resultado de um processo natural. Quando resíduos orgânicos se decompõem em ambientes sem oxigênio, ocorre a produção de gases, principalmente metano e dióxido de carbono.

Em aterros que possuem sistemas de captação, esse gás pode ser coletado e utilizado na geração de energia elétrica. O biogás também pode passar por processos de tratamento e purificação para se transformar em biometano, um combustível renovável que pode ter diferentes aplicações.

O desafio está justamente em aproveitar uma quantidade maior desse gás.

A pesquisa pretende usar a inteligência artificial para encontrar padrões que muitas vezes não são facilmente percebidos na análise convencional dos dados. Informações sobre as características e condições dos aterros serão cruzadas para identificar quais fatores estão associados a uma maior ou menor produção de biogás em cada poço.

Tecnologia será testada em aterro sanitário

A solução desenvolvida pelos pesquisadores deverá ser testada em um aterro sanitário em operação. A partir dos resultados obtidos no ambiente real, a equipe poderá avaliar a eficiência da tecnologia e identificar possíveis ajustes.

Uma das expectativas é que o sistema possa ser adaptado posteriormente para diferentes aterros, levando em consideração as características específicas de cada unidade.

A ideia é criar uma ferramenta que não fique restrita a um único local, mas que possa ser utilizada em diferentes estruturas de gestão de resíduos.

Mais gás, mais energia

Se os pesquisadores conseguirem aumentar a eficiência dos poços de captação, uma quantidade maior do biogás produzido nos aterros poderá ser direcionada para o aproveitamento energético.

Isso significa transformar parte de um problema ambiental em uma oportunidade de geração de energia.

Além do potencial energético, uma captação mais eficiente também pode contribuir para uma gestão mais adequada dos resíduos urbanos, ao aproveitar um gás que seria produzido naturalmente durante a decomposição da matéria orgânica.

O projeto reúne, assim, três frentes que ganham cada vez mais importância: tecnologia, sustentabilidade e transição para fontes renováveis de energia.

Inteligência artificial a serviço da sustentabilidade

A pesquisa mostra como a inteligência artificial pode ser utilizada para enfrentar problemas que vão muito além do ambiente digital. Nesse caso, a tecnologia é aplicada a uma questão concreta das cidades: o destino de milhões de toneladas de resíduos e o aproveitamento dos gases gerados pela decomposição do lixo.

Ao identificar os fatores que interferem na produção de biogás, os pesquisadores buscam tornar os aterros mais eficientes e ampliar o aproveitamento energético dos resíduos.

A expectativa é chegar a uma solução escalável, capaz de ser aplicada em diferentes aterros sanitários. Se os resultados forem positivos, o estudo poderá ajudar a transformar aterros — tradicionalmente associados a problemas ambientais — em estruturas capazes de contribuir também para a produção de energia limpa.

No fim, a proposta é simples de entender, mas ambiciosa em seus efeitos: usar tecnologia para fazer com que aquilo que seria apenas lixo possa gerar energia.

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