O bicheiro Rogério de Andrade será levado a júri popular acusado de ser o mandante do assassinato de Fernando de Miranda Iggnacio, morto a tiros de fuzil em novembro de 2020, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. A decisão é da 1ª Vara Criminal da Capital, após denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ).
Além de Rogério, a Justiça pronunciou Gilmar Eneas Lisboa, apontado pelo Ministério Público como responsável por monitorar a rotina de Fernando antes da execução. A prisão preventiva dos dois foi mantida. As defesas recorreram da decisão, mas a Justiça manteve a pronúncia.
Segundo o MPRJ, o assassinato estaria relacionado à disputa entre Rogério de Andrade e Fernando Iggnacio pelo controle de pontos de exploração de jogos de azar no Rio. A acusação sustenta que Rogério teria determinado a Márcio Araújo de Souza, integrante de sua organização criminosa e homem de sua confiança, que organizasse a execução.
Emboscada após o desembarque
Fernando Iggnacio foi assassinado logo depois de desembarcar de um helicóptero no heliporto da HeliRio, no Recreio. De acordo com a investigação, os criminosos ficaram escondidos em um terreno ao lado do estacionamento e aguardaram por cerca de quatro horas pela chegada da vítima.
Quando Fernando deixou o local, foi surpreendido por disparos de fuzil. O ataque provocou a morte do empresário e se tornou um dos episódios mais emblemáticos da disputa pelo controle territorial e financeiro do jogo do bicho no Rio, envolvendo os pontos de jogos do bicheiro Castor de Andrade – tio de Rogério – falecido em 1997.
Nova investigação trouxe novas provas
Rogério de Andrade já havia sido denunciado pelo MPRJ pelo mesmo homicídio, em 2021. No ano seguinte, porém, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o trancamento daquela ação penal por considerar frágeis as provas apresentadas contra o bicheiro.
O caso voltou a ser investigado a partir de um novo Procedimento Investigatório Criminal (PIC) conduzido pelo GAECO/MPRJ. Segundo o Ministério Público, a nova apuração permitiu reunir elementos adicionais sobre a participação de Rogério no crime e identificar Gilmar Eneas Lisboa como outro possível envolvido na execução.
A nova denúncia foi recebida pela Justiça em outubro de 2024. Em junho de 2026, o STF rejeitou uma reclamação apresentada pela defesa de Rogério e considerou demonstrada a existência de novos elementos de prova.
Na decisão de pronúncia, proferida em 18 de agosto, a Justiça também rejeitou os questionamentos das defesas sobre a validade das provas digitais. Para o juízo, existem indícios suficientes de autoria e participação para que Rogério e Gilmar sejam submetidos ao Tribunal do Júri.
A pronúncia, no entanto, não representa uma condenação. Nessa fase, a Justiça reconhece a existência de elementos suficientes para que os acusados sejam julgados pelos jurados. A decisão final sobre a responsabilidade pelo homicídio caberá ao Tribunal do Júri.
O processo segue em tramitação e as defesas ainda podem recorrer das decisões judiciais.
Entenda a guerra pela herança de Castor de Andrade
Quando Castor de Andrade morreu, em abril de 1997, o Rio de Janeiro perdeu um dos personagens mais conhecidos — e mais poderosos — da história do jogo do bicho. Mas a morte do contraventor não significou o fim de seu império. Ao contrário: abriu uma disputa pela sucessão que se transformaria em uma das mais violentas guerras internas da contravenção carioca.
Castor havia construído uma estrutura que ultrapassava a simples exploração do jogo do bicho. Seu grupo controlava territórios na Zona Oeste e na Costa Verde e mantinha influência sobre outras modalidades de jogos ilegais, como máquinas caça-níqueis. O bicheiro também ficou marcado pela relação com a Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba da qual se tornou uma das principais figuras.
Com sua morte, surgiu a questão que até hoje ajuda a explicar a violência envolvendo a família Andrade: quem ficaria com a herança de Castor?
A disputa dentro da própria família
Dois nomes assumiram posições centrais nessa disputa: o sobrinho Rogério de Andrade e Fernando Iggnacio, genro de Castor.
Rogério havia sido um dos homens de confiança do tio e já atuava nos negócios da família. Fernando, por sua vez, era casado com uma filha de Castor e passou a ocupar papel de destaque na estrutura após a morte do contraventor.
Havia ainda o filho de Castor, Paulo Roberto de Andrade, o Paulinho, apontado inicialmente como um dos sucessores naturais do pai.
A sucessão, portanto, não era apenas uma questão familiar. Envolvia o controle de pontos de jogo, máquinas caça-níqueis e territórios onde a exploração dessas atividades representava uma fonte significativa de poder e dinheiro.
O equilíbrio, entretanto, durou pouco.
A morte de Paulinho muda o jogo
Em 1998, cerca de um ano depois da morte de Castor, Paulinho de Andrade foi assassinado a tiros na Barra da Tijuca. O crime provocou uma ruptura ainda maior dentro da família.
A partir dali, Fernando Iggnacio ganhou espaço na estrutura que havia pertencido a Castor, enquanto Rogério de Andrade consolidava seus próprios negócios. O que começou como uma disputa sucessória passou a ser uma batalha pelo controle de territórios da contravenção.
Rogério chegou a ser investigado como possível mandante da morte de Paulinho, mas acabou absolvido.
A guerra entre os dois grupos, contudo, estava apenas começando.
A nova geração entra em campo
Ao longo dos anos seguintes, a disputa ganhou novos episódios e atingiu diretamente as famílias dos dois lados.
Em 2010, Diogo Andrade, filho de Rogério, morreu aos 17 anos após a explosão de uma bomba colocada em um carro da família. Fernando Iggnacio foi apontado nas investigações como um dos principais suspeitos pelo atentado, embora a dinâmica e as responsabilidades pelos episódios tenham sido objeto de investigações e disputas judiciais.
O episódio ajudou a transformar a disputa entre os dois grupos em uma guerra de vingança.
Para o Ministério Público do Rio, os conflitos foram acompanhados por uma estrutura criminosa voltada à defesa de territórios e à exploração de jogos de azar. O próprio MPRJ descreve a disputa entre os grupos de Rogério e Fernando como uma batalha pelo chamado “espólio” de Castor de Andrade.
O último capítulo: Fernando Iggnacio
A disputa terminou, pelo menos para um dos lados, em novembro de 2020.
Fernando Iggnacio desembarcou de helicóptero em um heliponto no Recreio dos Bandeirantes. Ao deixar o local, foi surpreendido por homens armados e morto a tiros de fuzil.
Segundo as investigações do Ministério Público, os criminosos haviam aguardado a chegada da vítima e a execução foi planejada. Rogério de Andrade passou a ser investigado como suposto mandante.
O caso teve uma primeira denúncia contra Rogério em 2021. Em 2022, porém, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal determinou o trancamento daquela ação penal por entender que não havia provas suficientes para sustentar a acusação de que ele teria sido o mandante.
A história, entretanto, não terminou ali.
Uma nova investigação conduzida pelo GAECO/MPRJ reuniu outros elementos e levou a uma nova denúncia. Dessa vez, além de Rogério, o Ministério Público acusou Gilmar Eneas Lisboa de participação no crime, apontando que ele teria monitorado a rotina de Fernando antes do assassinato.
Em 2026, a Justiça decidiu que Rogério e Gilmar devem ser submetidos ao Tribunal do Júri. A decisão de pronúncia não representa condenação: significa que a Justiça considerou existentes indícios suficientes para que os acusados sejam julgados pelos jurados.
Uma herança que nunca foi pacificamente dividida
A história dos Andrade mostra que a herança de Castor nunca foi pacificamente dividida.
O que existia como uma estrutura relativamente organizada sob o comando de um único patrono se fragmentou depois de sua morte. A disputa familiar deu origem a novos grupos, novos territórios e novos interesses.
E, sobretudo, criou uma sucessão marcada pela violência.
A morte de Castor, em 1997, foi o ponto de partida. A morte de Paulinho, em 1998, abriu a primeira grande ferida. A morte de Diogo, em 2010, mostrou que a guerra havia chegado à geração seguinte. E a execução de Fernando Iggnacio, em 2020, representou um dos episódios mais emblemáticos dessa longa disputa.
Quase três décadas depois da morte de Castor, a sucessão continua produzindo consequências nos tribunais. Rogério de Andrade tornou-se o principal nome associado ao que restou daquela estrutura, enquanto outros grupos passaram a disputar diferentes áreas do jogo do bicho no estado.
No fim, a chamada “herança de Castor” deixou de ser apenas uma questão familiar. Transformou-se em uma disputa permanente pelo controle de territórios e negócios ilícitos — uma disputa que, durante anos, foi marcada por atentados, assassinatos e acusações de participação de agentes públicos.
É essa trajetória que ajuda a explicar por que a morte de Fernando Iggnacio, ocorrida em um heliponto do Recreio em 2020, não pode ser analisada como um crime isolado. Para o Ministério Público, ela está inserida em uma história muito maior: a guerra pelo poder que começou quando morreu o homem que, até então, mantinha sob seu comando uma das mais importantes estruturas da contravenção carioca.


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